Índio Mura

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ALGUÉM MORREU EM CUIPIRANGA

José Ribamar Bessa Freire
08/01/2012 - Diário do Amazonas

Quem é que morreu em Cuipiranga? Foi algum cuipiranguense ilustre? Por que o cemitério dessa modesta comunidade ribeirinha está lotado com tanta gente nesta manhã de domingo, 8 de janeiro de 2012? Eram previstas 250 a 300 pessoas que sairiam às 8h00 caminhando pelo trapiche. Quantas vieram? Quem são elas? Por que desfilam, tão compenetradas, entre covas, tumbas e jazigos? Onde vão depositar as coroas de flores que carregam? De quem é, afinal, o velório? Qual o objetivo dessa romaria fúnebre? Aliás, pra começo de conversa, alguém aí, por favor, sabe me informar onde é mesmo que fica Cuipiranga?

A última pergunta pode ser esclarecida imediatamente. Cuipiranga tem um lugar reservado no mapa paisagístico, histórico e afetivo do Pará. Geograficamente, está situada numa língua de terra entre os rios Tapajós e Amazonas, quase em frente à Santarém. As questões sobre cemitério, morte e velório, porém, só podem ser respondidas se soubermos quem são os integrantes da romaria e o que fizeram juntos, ali, nos dias anteriores à visita ao cemitério.

Eles são moradores de Cuipiranga e das comunidades vizinhas, ribeirinhos, pescadores, artesãos, trabalhadores rurais, além de estudantes e professores da recém criada Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPa), alguns cineastas, antropólogos e historiadores vindos de São Paulo, de Belém, de Santarém.

Durante três dias, essas pessoas compartilharam um conjunto de atividades. No primeiro dia, levantaram o mastro da festa, celebraram cerimônia religiosa na praia e dançaram o marambiré, uma versão da folia de reis, com coreografia de passos bem marcados, na qual são apresentados vários personagens: o Rei Congo, vestido de branco, casaco adornado com talabarte de couro escuro e botas com enfeites de prata; a Rainha Mestra trajando vestido comprido, de seda em tons dourados, todo bordado; os vassalos-homens com calça comprida preta e as mulheres com vestido estampado.
Continue lendo: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=954

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Um olhar nativo e historiográfico do II Encontro da Cabanagem

Em comparação a outros movimentos regenciais, nota-se quão esquecida e alienada é a Cabanagem para os alunos nas escolas e para a população do Brasil, de um modo geral. Tornando-se isso propositalmente, nada mais do que a imposição da ignorância e do obscurecimento desse movimento ao povo do Brasil, haja vista que, seu caráter revolucionário-popular fundamentado nos ideais da Revolução Francesa fora capaz de depor governantes, intimidar um Império, organizar-se não apenas enquanto insurreição, mas sim como uma “revolução” que tomara de forma efetiva o poder na Província do Grão-Pará. Daí o temor de tomar este movimento como símbolo ou marco histórico de um Brasil Pós-Independência, pois se a Farroupilha - Também uma revolta do período regencial - já virara Minissérie na televisão brasileira, a Cabanagem nem sequer ganhou espaço e difusão na região do ocorrido – antigo Grão-Pará e atual Região Norte do país -, o que por si só denota o exímio esquecimento.
Vale ressaltar que desde a “Evolução Política do Brasil (1933)”, os estudos antropológicos e historiográficos caracterizam a Guerra da Cabanagem como uma das, senão a principal revolução política ocorrida no Brasil, em toda sua História após 1822. Muito além, o antropólogo inglês David Cleary apud MAHALEM DE LIMA (2008, p. 294), destacou no ano de 1998, que ela deve ser pensada como uma das maiores e mais abrangentes revoluções políticas de todo o Novo Mundo.
Por tudo isto, esperasse como muita expectativa que este II Encontro fundamente-se nas premissas de dar voz e vez aos documentos, relatos e memórias dos descendentes dos cabanos, no intuito de fazer uma releitura dos pequenos traços dessa revolta popular sob a ótica da Micro-História, haja vista que estes delineamentos também buscam auxílio na história escrita por Vicente Salles no livro “O Negro na formação da Sociedade Paraense”, em que o autor procura escrever a história defendida por Michelet, “a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos”.

Todavia, fato é, que ainda há muito a ser estudado sobre a Guerra da Cabanagem, sobre o seu palco de conflitos, sobre como se denominavam e qual era a ideologia dos cabanos, todavia é um massacre que a história daqueles que foram suplantados permaneça sepultada e caia no esquecimento perpétuo. Deve-se dar vez e voz aos descendentes das muitas vozes que se calaram e dos muitos corpos que jorraram sangue, na perspectiva de reescrever a história da cabanagem sob a ótica dos vencidos, desmistificando a historiografia tradicional que até hoje permeia nos livros e nas histórias disseminadas pelos discursos político-partidários.
Se a Revolução Francesa, a Revolução Inglesa e a Revolução Russa até hoje são cultuadas e idolatradas, porque não, dar a tamanha importância e enfoque a uma das maiores – se não a maior – Revolução do continente Americano: a Revolução Cabana.


¹Pesquisador de História da Amazônia e Co-coordenador do II Encontro da Cabanagem
     w.rodrigohistoriador@bol.com.br

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Foto: Renato Oliveira

ATENÇÃO, A VIAGEM JÁ VAI COMEÇAR

Estamos a poucas horas da viagem, e tudo indica que ela vai ser um sucesso. Graças inicialmente ao pequeno, mas aguerrido, grupo dos estudantes universitários do Projeto Memórias da Cabanagem. Todos voluntários, é importante frisar. Nossos sentimentos neste momento só podem ser de profunda gratidão a todas e a cada uma das pessoas que nos apoiaram no patrocínio. De modo especial, obrigado ao SINTEPP (Sindicato dos Trabalhadores de Educação Pública do Estado do Pará) pela decisiva ajuda no frete do barco; ao Deputado Edmilson Rodrigues (PSOL) pela passagem do ator José Jorge de Lana; à Prefeitura Municipal de Santarém pela passagem do diretor Paulo Miranda (ambas no trecho Blm-Stm-Blm) e ao vereador Carlos Jaime (PT) pelo ajuda em combustível e alimentos.

É claro que houve muitos Não, porém, o que mais nos alegra é que houve muitos Sim. Desde a generosidade daqueles que deram dois quilos de arroz, açúcar e farinha de mandioca, aos que mesmo sem poder participar da viagem doaram R$50,00. A soma desses gestos é que está fazendo o nosso sonho acontecer. É o sonho cabano de ontem e de hoje, da partilha e da solidariedade. Somos gratos igualmente pelo pacote de bolacha e pela passagem aérea. Estamos certos que os espíritos dos cabanos(as) também estão contentes e nos mandam luz, saúde, força. Que Deus Pai-e-Mãe retribua a todos(as) pelo apoio e que faça seus sonhos vingarem neste ano de 2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

A CAMINHO DO II ENCONTRO DA CABANAGEM

Cuipiranga (Santarém - PA), 06-08/01/2012


Pelo segundo ano consecutivo, a pequena comunidade de Cuipiranga, às margens do rio Tapajós, quase em frente de Santarém, será palco de um evento voltado à história e à memória da Cabanagem. Trata-se do II Encontro da Cabanagem, que acontecerá entre os dias 06 e 08 de janeiro, e que é uma iniciativa da Associação dos Moradores de Cuipiranga, com apoio do “Projeto Memórias da Cabanagem” (Programa de Antropologia e Arqueologia/PAA/ICS/UFOPA), DCE-UFOPA, SINTEPP, Prefeitura Municipal de Santarém, Dep. Edmilson Rodrigues, Ver. Carlos Jaime e Radio Rural, entre outros.

O objetivo do II Encontro, do mesmo jeito que o daquele que aconteceu em janeiro de 2011, é valorizar e celebrar a memória e a atualidade da luta dos cabanos, no lugar onde tiveram o seu mais resistente acampamento no Baixo Amazonas, e onde até hoje os moradores e descendentes lutam pelos seus direitos. Fazem parte da programação, além dos debates, piracaia, caminhada, levantação de mastro, folia do Marambiré, celebrações religiosas e homenagens aos mortos na guerra.

Toda essa mobilização tem à frente o antropólogo, frade franciscano e professor na UFOPA Florêncio Almeida Vaz, que atualmente coordena o Projeto Memórias da Cabanagem, onde estudantes e professores pesquisam a história da Cabanagem nos livros e recolhem as lembranças dos moradores sobre o período da guerra. A adesão dos estudantes universitários tem sido fundamental para o sucesso da iniciativa.
O resultado tem aparecido na forma de documentários em vídeo e textos, que são devolvidos aos comunitários através de encontros e debates. Os moradores parecem gostar, pois estes encontros sempre reúnem um significativo número de pessoas que querem contar e escutar histórias sobre a Cabanagem, e que querem se ver também nos filmes produzidos na região.

O primeiro momento deste processo foi a Caravana da Memória Cabana, um grupo de aproximadamente 20 pessoas, que no fim de maio de 2010 reuniu jornalistas, antropólogos, fotógrafos, cineastas e estudantes, e percorreu 10 comunidades no Baixo Tapajós. As 40 horas de gravação de imagens, com as memórias de 80 moradores, já resultaram em dois documentários: “Cuipiranga”, de Cristiano Burlan, lançado no I Encontro há um ano, e “Memórias Cabanas” de Clodoaldo Correa, que será lançado no dia 06 de janeiro em Cuipiranga, durante o II Encontro. Aguarda-se para breve um romance da antropóloga paulista Deborah Goldemberg, que junto com o Prof. Florêncio Vaz coordenou a Caravana da Memória Cabana. Outros artigos, dissertações e teses estão a caminho.

Os interessados em participar da Caravana que sairá de Santarém na manhã do dia 06/01/2012, devem reservar sua vaga URGENTEMENTE:
Prof. Dr. Florêncio Almeida Vaz – UFOPA
Coordenador do Projeto Memórias da Cabanagem
florenciovaz@uol.com.br Tel. (093)9184-4900
Faixa afixada em casa de palha em Cuipiranga durante o I Encontro mostra a associação entre a luta dos cabanos o enfrentamento da atual ameaça das hidrelétricas no rio Tapajós.

Foto de Maurício e Ramon.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

“O CÔNEGO” E PAULO MIRANDA EM CUIPIRANGA E SANTARÉM

Um dos maiores destaques do II Encontro da Cabanagem será a presença do cineasta Paulo Miranda, de Belém, que vai lançar seu filme O CÔNEGO, que conta a história do Padre Batista Campos, figura central na primeira fase da Cabanagem. O filme, que será mostrado em Cuipiranga na noite do dia 7 de janeiro, foi lançado na capital faz poucos meses. Paulo Miranda vem acompanhado do ator José Jorge de Lana. Também pela primeira vez o filme vai ser apresentado em Santarém, no dia 9 de janeiro, em local e horário a ser anunciado ainda. A vinda Paulo Miranda tem o patrocínio da Prefeitura Municipal de Santarém, enquanto o Dep. Estadual Edmilson Rodrigues patrocina a vinda de José Jorge de Lana.

É muito significativo que o filme seja mostrado primeiramente aos humildes ribeirinhos de Cuipiranga e arredores, os descendentes dos cabanos que lutaram ali há 177 anos. É a junção da sua memória histórica com uma rara versão cinematográfica da mesma Cabanagem. Sem contar que o próprio Padre Batista Campos passou por Óbidos, Vila Franca, Alter do Chão e Santarém em 1831, três anos antes de ser morto nas matas do Acará, perto de Belém. Então, de alguma forma, ele volta às terras por onde passou pregando o levante contra a tirania e pela libertação.

Além do longa metragem "O Cônego", será lançado em Cuipiranga o documentário "Memórias Cabanas", do cineasta santareno Clodoaldo Correa, com relatos dos moradores de comunidades do rio Tapajós e quilombolas sobre a memória que as pessoas guardam dos tempos da Cabanagem. Essa obra vem se juntar a "Cuipiranga", o primeiro documentário lançado no rastro da iniciativa “Caravana Cabana” (maio de 2010), coordenada pelos antropólogos Deborah Goldemberg e Florêncio Vaz.

Mais informações sobre o filme O CÔNEGO:
http://www.orm.com.br/amazoniajornal/interna/default.asp?modulo=829&codigo=545098
http://www.youtube.com/watch?v=mEmw2qKjfMs (fotos do filme)
http://www.youtube.com/watch?v=bTJozIEvuds (chamada do filme)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PLACA DE HOMENAGEM AOS CABANOS NO CEMITÉRIO DE CUIPIRANGA

DEIXADA DURANTE O I ENCONTRO DA CABANAGEM

Os dizeres são:

175 ANOS DA CABANAGEM
“Ainda que os pés pisem mil anos neste lugar
Não apagarão o sangue dos que aqui caíram
E não se extinguirá a hora em que caístes
Ainda que mil vozes cruzem este silêncio”.
(Pablo Neruda)

Nesta terra vermelha, nós cidadãos(ãs) amazônidas nos reunimos,
Para fazer memória da luta daqueles
Que aqui se levantaram contra a opressão
E ousaram decidir os seus próprios destinos
Este ideal é a nossa herança.
Cuipiranga, 07.09.2011

Obs. O trecho original de Neruda é:
“Aunque los pasos toquen mil años este sitio
No borrarán La sangre de los que cayeron
Y no se extinguirá La hora em que caisteis
Aunque miles de voces crucen este silencio”

Está na “Homenagem aos Mártires do Estádio do Chile”, deixada em 30/04/1990 pela Coordenação Nacional das Organizações pelos Direitos Humanos, em Santiago do Chile. Calcula-se que 3.000 mil pessoas foram presas, torturadas e mortas naquele local nos dias que se seguiram ao Golpe de Estado de 11 de setembro de 1973.
Calcula-se que foram mortas 40 mil pessoas na Amazônia durante a Cabanagem. Algumas das vítimas pertenciam a classe alta ou média: eram portugueses ou seus descendentes. Porém, a massa dos torturados e assassinados era composta principalmente de indígenas, negros, mestiços e brancos empobrecidos. O que disse Neruda faz muito sentido aqui, como também em toda esta vasta Nossa América Latina.

07.01.2011 - A bandeira vermelha ainda cobria a placa, que logo estava solenemente inaugurada e rodeada por crianças, jovens e idosos, os participantes do I Encontro da Cabanagem. Foi um dos momentos mais profundos e místicos, tendo o sol, o rio e a floresta como testemunhas (Foto: Sáida)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CUIPIRANGA - O SANGUE QUE NÃO SECA E A BANDEIRA QUE CONTINUA DE PÉ

A CABANAGEM CONTINUA: RUMO AO II ENCONTRO DE CUIPIRANGA

II ENCONTRO DA CABANAGEM

Cuipiranga (Santarém - PA), 06-08/01/2012

Iniciativa da Associação dos Moradores de Cuipiranga, com apoio do “Projeto Memórias da Cabanagem” (Programa de Antropologia e Arqueologia/PAA/ICS/UFOPA), DCE-UFOPA, UES, SINTEPP, GCI e Radio Rural.
Objetivo: Valorizar e celebrar a memória e a atualidade dos cabanos no lugar onde tiveram o seu mais resistente acampamento no baixo Amazonas, e onde até hoje os moradores e descendentes lutam pelos seus direitos.
A previsão é reunir 200 pessoas, entre moradores de Cuipiranga e comunidades vizinhas e o grupo de 40 acadêmicos da UFOPA e representantes de movimentos sociais que irão de Santarém.

Programação
06/01/2012
07:00 hs – Saída do barco de Santarém para Cuipiranga, levando estudantes e professores da UFOPA e demais participantes.
11:00 hs – [Após chegada do barco a Cuipiranga] Recepção e apresentação dos visitantes e abertura do Encontro.
12:00 – Almoço
14:30 hs – História e memória da Cabanagem: 177 anos de uma guerra que não acabou – Hoje a luta é contra as hidrelétricas.
[mesa-redonda e discussão, com participação de pesquisadores, visitantes e moradores]
17:30 hs – Levantação do mastro da festa
19:30 hs – Celebração religiosa na praia seguida de apresentação do Marambiré.
20:30 hs – Lançamento do documentário MEMÓRIAS CABANAS, de Clodoaldo Correa.

07/01/2012
06:00 hs – Café da manhã
06:30 hs – Saída da Caminhada dos Cabanos, de Cuipiranga, passando por Vila Amazonas, em direção à comunidade de Guajará (sai do lado do rio Tapajós para o rio Amazonas).
10:00 hs – Chegada e recepção em Guajará, seguida de discussão sobre o sentido da Caminhada e da luta dos cabanos hoje: a proposta de criação do MUSEU ABERTO DA CABANAGEM.
12:00 hs – Almoço coletivo
13:00 hs – Apresentação de filmes e documentários
14:30 hs – Despedidas e volta para Cuipiranga.
19:30 hs – Ritual/celebração
20:00 hs – Lançamento do filme O CÔNEGO (com a presença do diretor Paulo Miranda), seguido de debates.
22:00 hs – Festa dançante

08/01/2012
7:00 hs – Café da manhã
8:00 hs – Homenagem aos cabanos: Visita ao Cemitério de Cuipiranga
9:30 hs - Avaliação e planejamento do evento
10:30 hs – Ritual de despedida Derrubada do mastro
11:30 hs – Piracaia (almoço) de despedida e final do encontro
15:00 hs – saída do barco para Santarém

Maiores informações e reserva de vagas:
Prof. Dr. Florêncio Almeida Vaz – UFOPA
Coordenador do Projeto Memórias da Cabanagem
florenciovaz@uol.com.br
(093)9184-4900

domingo, 16 de janeiro de 2011

Comemoração dos 175 anos da Cabanagem em Cuipiranga

Escrito por José Renato da Costa Oliveira Júnior, estudante de Direito da UFOPa

Se realizou em Cuipiranga, nos dias 7, 8 e 9 de janeiro de 2011, a comemoração dos 175 da Cabanagem.
A Caravana da Memória Cabana ganhou uma boa repercussão regional, e ainda que a equipe que a compôs no início não tenha podido participar na sua totalidade de integrantes em sua segunda parte, o número de participantes aumentou sensivelmente, tendo a Caravana aglutinado em torno de 50 pessoas dos mais diversos contextos sociais, como estudantes, professores, servidores públicos, profissionais liberais, políticos etc, que saíram na madrugada do dia 7 de janeiro em direção a comunidade de Cuipiranga. 
Debaixo de um forte temporal começamos nossa jornada, mas depois de toda tempestade vem a bonança. Na comunidade todos os participantes foram imensamente bem recebidos por gente simples, honesta e cativante. Para mim, tanto os locais de recepção e reunião quanto as comidas regionais deliciosas e os festejos foram preparados com muita dedicação.
O ponto central da comemoração foi a memória da Cabanagem e sua relevância nos dias de hoje, nas lutas socias de hoje. Representantes de diversas entidades e movimentos sociais falaram sobre a memória da revolução cabana, foram feitos diversos debates sobre a luta principalmente interna para reaver conscientemente a própria memória como bandeira de luta social e posteriormente sobre a luta externa para que a memória seja um ponto de resistência contra a exploração do povo amazônida.
Um dos produtos da Caravana, o filme “Cuipiranga”, que possui os relatos das memórias tanto de descendentes dos revolucionários da Cabanagem quanto de conhecedores do trajeto da revolução, relatos extraídos de diversas comunidades e aldeias indígenas, foi exibido na comunidade de Cupiranga e na comunidade de Vila Amazônia, alcançada depois de uma caminhada de aproximadamente três horas, que repetiu um dos trajetos dos revolucionários cabanos pela mata adentro.
Foi erguido um momumento-memorial no cemitério da comunidade de Cuipiranga. Lugar em que jazem junto com as ruínas da igreja que ali existia, uma parte daqueles que ousaram se levantar contra uma força opressora gigantesca, e acreditaram que lutar pela sua liberdade e a liberdade dos seus de ter uma vida digna era uma luta para ser lutada até a vitória ou até a morte.
O compromisso do projeto da Caravana da Memória Cabana com a comunidade de Cupiranga e as outras comunidades historicamente e materialmente cabanas foi reiterado e diversos encaminhamentos de ações futuras foi postos e assumidos.
A todos os cabanos de ontem e hoje, saibam que em mim vejo vocês, também em mim vejo a vossa luta! Que a memória cabana viva para sempre! Que ela nos inspire a nos dê forças para lutarmos por uma sociedade mais justa!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reminiscências de uma viagem a um Brasil profundo

Depoimento de Cris Burlan, cineasta cabano:
Passado um mês da experiência de ter participado da Caravana da Memória Cabana, busco não filtrar as impressões e sensações ocorridas durante o trajeto, as experiência adquiridas e afins.
Minha memória, antes de mais nada, é olfativa, e através das lembranças de todos os aromas e cheiros, consigo reconstruir uma partitura do que foi essa viagem.
O desafio de resgatar, através do audiovisual, este acontecimento tão distante e marcante da historia brasileira, e tão pouco conhecido, se dá no campo do imaginário coletivo.
As possibilidades são muitas de se deixar levar por devaneios estéticos e científicos, mas ir por este caminho me levaria a uma estrada sem fim.
Acredito piamente no poder do cinema como uma arte epifânica e catártica. Por mais que eu queira domar/controlar/conduzir/manipular o material captado, isso seria impossível. Não tenho controle sobre isso, todas as imagens, depoimentos e sons captados, durante nossa viagem, tem vida própria.
Quando se está por trás de uma câmera, não existe a plena consciência do objeto ao qual você direciona a mesma. As lentes são filtros da realidade.
Só agora tenho noção da profundidade e diversidade do material captado, neste momento que me encontro na montagem - que é um processo dialético e reflexivo , onde o grande perigo é o do encadeamento lógico. Há que se resistir, e ter uma disciplina espartana, para que as coisas se estruturem naturalmente.
Me chama muito a atenção, não somente os diálogos e os depoimentos, muitas vezes comoventes, mas a expressão e uma certa melancolia, que exprimem esses rostos que fotografei durante a viagem.
Tenho uma certa obsessão pela busca de uma expressividade no tempo morto, e no extra-campo. E, principalmente, naquilo que não pode ser dito, nem fotografado. Creio que nesses espaços vazios, onde deixamos de perguntar e falar, é que reside a tecitura de um filme.
Devaneios a parte, o que eu quero dizer é que agradeço muito por ter participado da Caravana da Memória Cabana, e de ter conhecido todos os integrantes, e todas as pessoas que encontramos durante nossa viagem. Com certeza, uma passagem da minha vida, que vou guardar com muito carinho até o fim dos meus dias.
Ninguém navega impune nas águas do Rio Tapajós.
PS.: Sinto saudades de beber um Tarubá, e dançar ao som do Gambá!!!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Impressões sobre a Caravana da Memória Cabana

Texto escrito por José Renato da Costa Oliveira Júnior, acadêmico de Direito da UFOPa.

Algumas semanas e as minhas memórias começaram a se solidificar e se reconstruir, como diria nosso querido antropólogo "cabano" Leandro, e aqui estou escrevendo mais uma vez. Interessante pensar que elas sempre terão plasticidade, podendo se modificar e se agrupar com outras, incontáveis vezes. Claro, eu ter entrado de férias e ter conseguido um computador com internet contribuiu crucialmente para que após esse aparente hiato esse texto esteja aqui.
Convido também todos os participantes a escreverem! Registremos o que vivemos, antes que a memória se esvaia ou o interesse finde! xD
O que permaneceu forte em minhas lembranças após o retorno para Santarém, do que acredito ser apenas a primeira parte de um projeto que ainda vai crescer e ramificar - como as mudas de plantas de foram dadas de presente as duas figuras icônicas do projeto, seja por ter sido um o principal idealizador e tornador em realidade do que era apenas um sonho, seja pelo outro ter inevitávelmente cativado a todos - foi o estilo de vida de populações que tem sua história atrelada a uma sempre presente luta por seus direitos, sejam os quilombolas, sejam os indígenas e ribeirinhos. Um espírito de luta que se personifica quando ouvimos discursos engajados e conscientes sobre pelo que se tem que lutar.
Paralelamente a isso, fui cativado pelo espírito de cordialidade e generosidade dos que nos receberam. Abro um espaço para agradecer pelo presente que a dona Teresa, mãe do cacique Enoque, de Vila Franca me deu. Foi algo tão espontâneo e de coração, que desde já fica como a memória pela qual eu tenho mais carinho. Parando pra pensar sobre isso, imagino justamente toda essa hospitalidade não foi um dos porquês de tantos indígenas terem sucumbido na mão de estrangeiros, tantos séculos atrás.
Nosso povo é bom de coração, na sua origem, na sua fonte. Talvez pela diversidade que sempre existiu em nossa região, com aldeias indígenas que eram universos completamente heterogêneos entre si, em seus costumes e tradições. Uma colcha de retalhos multicultural.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Frutos da Caravana da Memória Cabana

Texto escrito por José Renato da Costa Oliveira Júnior, acadêmico de Direito da UFOPa.

Das diversas idéias que surgiram dentro da Caravana da Memória Cabana, uma delas foi a de criar um Grupo de Assessoria Jurídica aos Povos Tradicionais do Baixo Tapajós, pensada pelo Leandro (Antropólogo) e endossada pelos alunos do curso de Direito da Universidade participantes do projeto.
Interessante pensar que, talvez obra do destino, arquitetada pelas almas dos cabanas que jazem na região e seus clamores que ecoam pelo tempo e espaço, ao voltar para Santarém, em uma reunião do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Universidade , foi posta em pauta a criação do NAJUP (Núcleo de Assessoria Jurídica Popular). Caiu como uma luva na idéia de criação do grupo de assessoria jurídica, pois perfeitamente poderia existir como parte especializada dentro do NAJUP.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Depoimento de Florêncio Vaz

A experiência da Caravana Cabana foi fantástica, e superou em muito as minhas expectativas e as dos outros participantes. Minha avaliação foi que tivemos um sucesso total em relação ao nosso projeto inicial, que era recolher relatos sobre a Cabanagem para produzir documentários, livros, fotos etc. O material foi colhido.
Visitamos nove comunidades ou grupos, incluindo o encontro com quilombolas em um bairro de Santarém. Temos agora um arquivo de quase 50 horas de entrevistas em vídeo e outras tantas em áudio, o que já constitui seguramente o maior arquivo do tipo sobre as memórias da Cabanagem no Oeste do Pará. Aproximadamente 80 pessoas de diferentes comunidades deram seus depoimentos. As fotos captaram rostos, expressões e paisagens lindas. As anotações feitas pelos membros da Caravana ainda vão dar muitos frutos.
Digo que o resultado foi um sucesso total quando me refiro aos profundos impactos que a CARAVANA provocou nos moradores das comunidades visitadas e seus vizinhos, que acorreram aos locais para nos encontrar e que ficaram estimulados a lembrar e recontar suas histórias, mitos e sonhos. Sem contar que as pessoas aproveitaram o momento para mostrar danças tradicionais, bebidas e beijus, para fazer fogueiras e rituais. Falar da Cabanagem para eles é falar e vivenciar o seu "modo de vida total", incluindo o tarubá, o xibé e a comida coletiva.
Mesmo moradores de lugares que não foram visitados pela Caravana se interessaram e seus moradores chegaram a alguns dos locais por onde passamos. Outras comunidades mais distantes passaram a olhar com mais atenção para a cabanagem e o seu papel na história regional. Eles estão falando mais das suas lembranças sobre o seu passado. E aguardam a sua oportunidade de também contar as suas histórias.
Na cidade de Santarém, a mídia local deu bastante espaço para a Caravana, e vários caravanistas falaram da importância dessa guerra para a história da Amazônia e até do Brasil. A Rádio Rural promoveu um “debate” somente sobre a Cabanagem e a Caravana. Certa vez, antes de entrevistas os “paulistas”, uma repórter perguntava “por que pessoas vêm de São Paulo em busca das memórias da cabanagem, enquanto os moradores daqui mesmo não se interessam?” Certamente, depois dessa provoção muitos começaram a se interessar.
A viagem também provocou impactos nos participantes da Caravana, paulistas e paraenses. Todos voltamos aos nossos mundos transformados e envolvidos nessa ambiência da vida do povo do interior da Amazônia, sejam eles negros, indígenas, ribeirinhos ou outros. Por isso, o grupo decidiu dar continuidade ao projeto coletivo. Os frutos não demorarão. Na verdade já estão aí.
No coração, a saudade das pessoas simples e acolhedoras, dos seus sorrisos e dos seus abraços. Não tem como evitar. NÓS VOLTAREMOS, E SEREMOS MAIS. VOLTAREMOS E SEREMOS MUITOS, MILHARES, POIS NÓS SOMOS OS CABANOS(AS) VIVOS DE HOJE, E AINDA ESTAMOS DE PÉS.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Olho do Infinito

Crônica de José Renato da Costa Oliveira Júnior, acadêmico da UFOPa.

Viemos todos, de diversos cantos.
Nos unimos. Porque?
Havia a pergunta, e no início era apenas o que havia.
Respiramos fundo, mergulhamos, mãos dadas, olhos abertos.
Encontramos a escuridão, ela nos cumprimentou.
Olhamos e vimos ao longe uma chama pequena, tímida, convidativa.
Fomos mais fundo e a pequena chama se agigantou.
Pisamos no chão agora frente a frente com a claridade.
Pudemos ouvir passos, o baque surdo de pés no chão. Sentir gostos, amargos, doces, ancestrais.
Ao nosso redor, vultos, movimentos, mãos e pés, pinturas no corpo. Expressões sendo delineadas.
A Floresta envolveu-nos. Nos ninou em seus fortes braços, disse para não termos medo.
O Silêncio então se fez, e O Passado se abriu através das chamas.
Havia algo ali. Vozes. Aqueles que se foram.
Correntes quebradas, sonhos de "Aruanda".
Uma canoa na beira do rio. Ela jamais veria seu dono novamente.
Flechas quebradas.
Havia a memória, e enfim aqueles que a ouviriam.

Sobre as ondas...

A bordo do barco Celestial, a equipe da Caravana da Memória Cabana viajou pelos Rios Tapajós e Arapiuns e também realizou as chamadas "rodas de troca." Fotos de Clodoaldo Corrêa.

Equipe Cabanagem em Ação

Esta é parte da equipe da Caravana Cabana em ação, em Alter do Chão, junto à alguns comunitários.
Foto de Karime Rubez.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Recepção alegre em Cuipiranga

A Caravana da Memória Cabana, no seu terceiro dia de atividades (e já abordo do barco Celestial) foi alegremente recebida por moradores de Cuipiranga, com uma canção de Sr. Coruja, um líder local:
.
"A Caravana, vamos saudar
Sejam benvindos, neste lugar
E nesta terra podem pisar
Estamos prontos, para abraçar.
.
Você realmente quer saber
O que aconteceu, há muitos anos atras
O movimento, chamado Cabanagem
foi a revolução publicada nos jornais.
.
Um dos sinais, foi a igreja construída
feita com barro e pedra, so tem as laterias
A cor da areia é de cor avermelhada
Foram sangue derramado, com vítimas fatais.
.
Ainda tem marcas de canhão de defezas
E no rosto das pessoas se vê a semelhança
Cuipiranga foi o centro do combate
Matavam sem piedade, os adultos e crianças."